9 de out. de 2016

Direita? Esquerda? Palavras que perderam o significado



Extrema esquerda imperialista
Thierry Meyssan, Rede Voltaire | Damasco (Síria), 5 de Outubro de 2016

Sob as presidências de Johnson e Nixon, a CIA tentou corromper militantes comunistas, em todo o mundo, e voltá-los contra Moscou e Pequim. Foi assim que, durante a guerra civil libanesa, Riad el-Turki se separou do Partido comunista sírio com cinquenta militantes, entre os quais Georges Sabra e Michel Kilo.

Tratando de não ficar isolados, estes iniciaram contatos com um pequeno partido de extrema-esquerda norte-americano, Social Democrats USA, nos quais se filiaram.


Durante os «anos de chumbo» que a Síria experimentou entre 1978 e 1982 com a campanha terrorista dos Irmãos Muçulmanos, Georges Sabra e Michel Kilo foram encarregados pelo líder do Social Democrats USA, Carl Gershman, de apoiar o Ikwan. Eles publicaram então um texto assegurando que a Revolução Mundial estava em marcha, que os Irmãos Muçulmanos eram a vanguarda do proletariado, e que o «Grande Crepúsculo» chegaria graças aos Estados Unidos. Foram então detidos devido às suas ligações com os terroristas.


Em 1982, o presidente Reagan criou com os seus parceiros dos «Cinco Olhos», quer dizer a Austrália, o Canadá, a Nova Zelândia e o Reino Unido, uma nova agência de inteligência encarregue de apoiar as oposições internas nos Estados comunistas, a National Endowment for Democracy (NED).

Ele disfarçou esta agência intergovernamental como «ONG», fez com que fosse financiada diretamente através do Congresso e não pelo Governo Federal, embora dentro do quadro do orçamento do Departamento de Estado. Ele confiou a sua direção a Carl Gerhsman.

Militantes deste partido trotskista seguiram-no no seu percurso da extrema-esquerda para a direita do Partido Republicano. Entre eles, um bando de jornalistas da revista sionista Commentary, que entrarão na História sob o nome de «neo-conservadores» (ou “neo-cons”- NT), e intelectuais como Paul Wolfowitz, futuro secretário adjunto da Defesa.


O ponto de encontro entre esta extrema-esquerda anti-soviética e o imperialismo norte-americano fez-se em torno da noção de «revolução mundial». Os Trotskistas tinham carta branca para lá chegar desde que fosse contra os Soviéticos e não contra Washington e seus aliados.


Eles constituíram quatro divisões da NED, uma para os sindicatos, uma para os patrões, a terceira para os partidos de esquerda e a quarta para os partidos de direita. Tinham, assim, um meio para apoiar qualquer facção social ou política, fosse ela qual fosse, em qualquer parte do mundo.


Atualmente, o ramo destinado a corromper os Partidos de direita, o International Republican Institut (IRI) (Instituto Republicano Internacional- NT) , é dirigido pelo Senador John McCain, que é ao mesmo tempo parlamentar da Oposição e funcionário da Administração que ele contesta. O ramo destinado aos Partidos de esquerda, o National Democratic Institut (NDI) (Instituto Democrático Nacional- NT), é dirigido pela antiga secretária de Estado Madeleine Albright.


Durante a preparação da “Primavera Árabe”, a extrema-esquerda árabe continuou a trabalhar com a Irmandade Muçulmana. Tivemos assim o professor Moncef Marzouki, futuro presidente da Tunísia, ou o professor Burhan Galioun, futuro presidente do Conselho Nacional Sírio. Assim, este grande personagem do laicismo escreveu os discursos do Argelino Abassa Madani, o chefe da Frente Islâmica de Salvação em exílio no Catar.


O discurso desta extrema-esquerda é baseado em saladas russas, como a convicção de que todos os Estados árabes se equivalem, tanto seja a Arábia Saudita do rei Salman como a Síria do Presidente al-Assad. Os únicos governos que eles respeitam são os de Washington e de Telavive.


Hoje em dia, Galioun, Sabra e Kilo são as únicas cauções de esquerda da pretensa «revolução síria»; uma falsa esquerda, não ao serviço da humanidade, mas, sim, da dominação do mundo pelos Estados Unidos e Israel.


Tradução: Alva

Entendendo o que se passa na Síria



Extensão do conflito
Thierry Meyssan, Rede Voltaire | Beirute (Líbano), 9 de Outubro de 2016
Thierry Meyssan prossegue a sua narração da guerra que opõe Washington e os seus aliados ao resto do mundo. O Egito entrou no conflito. Israel atacou a Síria. A Turquia mantêm as suas tropas no Iraque, apesar da queixa de Bagdá. Entretanto, dirigimo-nos para um quinto veto russo-chinês no Conselho de Segurança contra a iniciativa francesa.


O ministro russo da Defesa, Sergei Shoigu, traçou um balanço da ação das forças armadas da Rússia na Síria. Num ano, declarou ele, «elas libertaram 586 localidades e mais de 12.000 quilómetros quadrados de território, eliminaram cerca de 35. 000 terroristas, dos quais mais de 2.700 pessoas oriundas da Rússia e de países da CEI». Ele confrontou estes resultados aos dos Estados Unidos que, enquanto declaravam combater os terroristas, na realidade, os apoiam contra a República Árabe Síria.


A Duma aprovou por unanimidade o acordo russo-sírio autorizando a instalação por tempo indeterminado da aviação russa na base síria de Hmeimim. Este texto tinha sido firmado em segredo em Agosto de 2015 e só foi apresentado à Duma afim de tornar pública a posição russa. A Duma precisou que a presença militar russa no Levante é indispensável na luta contra o terrorismo.


Simultaneamente iniciaram-se os maiores exercícios militares russo-egípcios desde a época de Gamal Abdel Nasser. O Estado-maior russo indicou que estas manobras iriam permitir coordenar os dois exércitos na sua luta contra os jihadistas, nomeadamente no deserto. Ao fazê-lo a Rússia oficializou a sua implementação militar no país, para além da Síria e do Iêmen (mesmo se a presença no Iêmen é de momento apenas oficiosa).


Vários generais norte-americanos relevaram que a situação nunca foi tão má desde a guerra na Coreia. Segundo eles, um enfrentamento entre os Estados Unidos e a Rússia seria breve, mas numa escala jamais igualada na História. O General Mark A. Milley, chefe do Estado-maior de terra, afirmou que as duas Marinhas e Forças Aéreas se neutralizariam e que os combates mais duros teriam lugar no solo. O embaixador Charles W. Freeman Jr. advertiu contra uma passagem à ação quando os Estados Unidos e a Rússia conseguiram até agora evitar uma guerra nuclear.


O PKK, quer dizer os Curdos turcos, aproveitaram a situação para retornar Jarablus, no Norte da Síria. Enquanto a Turquia denunciou a queixa Iraquiana contra si. Ancara recusa retirar os seus soldados do território iraquiano e argumenta que apenas a presença de seus soldados era contestada por Bagdade, quando uma trintena de Estados se instalaram no país.


Acima de tudo, considerando que Washington e Moscou estavam muito ocupados com o seu confronto para intervir, o exército israelita atacou a área adjacente ao planalto do Golan ocupado.

Telavive expulsou, em Agosto de 2014, os capacetes azuis da Força das Nações Unidas encarregues de manter a zona desmilitarizada (UNDOF) e substituiu-os pelos jihadistas da Al-Qaida. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu fez-se fotografar com alguns dos 500 jiadistas tratados no Ziv Medical Center. Ele declarou em Junho de 2016 que nunca restituiria os Golan ao seu proprietário sírio. Considerando que era demais, os Estados Unidos e a Rússia acordaram em redigir um projeto de resolução exortando Israel a cessar o seu apoio aos terroristas e deixar a ONU retomar a sua missão. A resolução devia ter sido apresentada em Agosto, mas, este projeto acabou por não sobreviver à deterioração das relações entre Moscou e Washington.


A artilharia israelita bombardeou toda tarde, assim como a aviação, que disparou sobre o território sírio a partir do espaço aéreo israelita. Os jihadistas tem operado sob o seu apoio.

No caso de Israel e os jihadistas conseguirem abrir um corredor entre a zona desmilitarizada síria e as quintas de Shebaa libanesas, seria possível estender a guerra ao sul do Líbano. As populações druzas, fieis ao Príncipe Talal Arslan e à República Árabe Síria, e não a Walid Jumblatt, são susceptíveis de ser exterminadas pelos jihadistas.


No plano diplomático, os Estados Unidos pediram a abertura de uma investigação sobre a ofensiva síria-russa contra os jihadistas em Alepo-Leste por «crimes de guerra». O representante do Secretário-geral para a Síria, Steffan de Mistura, propôs-se garantir a salvaguarda dos combatentes se eles decidirem deixar a Alepo-Leste para Idlib, e interromper assim a batalha para salvar os civis. Mas este compromisso (inspirado pelo diretor dos Assuntos políticos da ONU, Jeffrey Feltman, em nome de Washington) foi rejeitado pela França.


Após consulta com Israel, Paris decidiu não se integrar as emendas que o seu Ministro dos Negócios Estrangeiros, Jean-Marc Ayrault, tinha negociado com o seu homólogo russo, Sergey Lavrov, e manter o seu projeto no sábado perante o Conselho de Segurança. Ayrault irá pessoalmente a Nova Iorque para defender o seu texto.

O projeto francês prevê interditar qualquer bombardeamento em Alepo-Leste, seja por artilharia ou aviação, e proibir qualquer sobrevoo da cidade por aeronaves militares. A Rússia confirmou imediatamente que ela lhe oporia o seu veto. Ignora-se ainda a posição chinesa, mas pode acontecer amanhã ao quinto veto conjunto de Moscou e Pequim sobre as iniciativas da OTAN em relação à Síria. A Síria irá tornar-se então no principal ponto de fricção internacional desde a Segunda Guerra mundial. Este impasse poderá pôr em causa o futuro das Nações Unidas.


Tradução: Alva


23 de set. de 2016

“Jornalismo baseado em rumores é como terrorismo” – Papa Francisco


O jornal online RT publicou hoje  (23) uma notícia sobre um encontro do Papa Francisco com repórteres italianos.  Ele teria alertado que devemos ser cuidadosos pois podemos matar com nossas línguas.  Isso seria ainda mais verdadeiro em relação a jornalistas;  portanto, seu trabalho deve ser profissional e nunca baseado em rumores.

Na quinta-feira  (22), em um encontro do Conselho Nacional da Ordem dos Jornalistas da Itália, que reuniu cerca de 400 pessoas, o Papa Francis destacou a importância do profissionalismo na atividade jornalística, visto que se trata da base de uma sociedade independente e pluralista.

Eu tenho frequentemente falado que ‘rumores’ são como terrorismo, que pode-se matar uma pessoa com a língua’, o Papa Francisco disse.  Se isso é válido para cada um de nós, na família ou no trabalho, é ainda mais válido para os jornalistas porque sua voz pode chegar a todos – e essa é uma arma poderosa.’

A denúncia dos erros, ele continuou, não deve vir às custas do desrespeito do outro porque ‘o injustamente difamado pode ser destruído para sempre.

O jornal online RT lembra que as observações do Papa se aplicam bem à Itália – um país onde, como ocorre no Brasil, os controles da difamação através da imprensa são precários.  Tal foi o caso em 2009, quando, segundo o Guardian, o Conselho dos Jornalistas atacou o então primeiro-ministro Silvio Berlusconi depois que um dos jornais de sua família começou a atacar o caráter de um magistrado que havia decidido contra uma das empresas da família Berlusconi.

Numa referência a mais prementes questões que afetam o planeta – particularmente a cobertura da crise de migração – o Papa disse que o jornalismo não deve ser uma "arma de destruição de pessoas e mesmo povos inteiros."

O jornalismo no Brasil

As observações do Papa Francisco aplicam-se perfeitamente aos acontecimentos no Brasil nos últimos anos.

Aqui, a grande mídia não apenas tem procurado destruir os ex-presidentes Lula e Dilma como também tem ocultado importantes fatos da população.  Ciente das consequências de sua atitude, a mídia em promovido escândalos para gerar uma visão deturpada da verdade.  Sem promover esclarecimentos sobre os assuntos, tem defendido saídas que vão diretamente contra os interesses dos trabalhadores.  Enquanto ativamente coordenando os movimentos da oposição, a grande mídia brasileira tem ignorado os protestos, as greves, os movimentos pela democracia e contra o golpe.

Isso indica que a mídia brasileira tem usado seu poder para promover seus interesses privados contra os interesses legítimos do povo brasileiro.

Isso tanto é verdade que muitos brasileiros precisam recorrer aos blogs e à mídia internacional para obter informação sobre o que de fato ocorre no país; que diversos grupos organizados da população procuram promover no exterior uma outra versão dos fatos, a qual tem sido consistentemente ocultada do povo brasileiro.

Em sua conversa com os jornalistas na Itália, o Papa Francisco também afirmou que o jornalismo não deve ser feito sobre o que os jornalistas e a mídia para a qual trabalham acreditam, mas sim sobre a informação, sobre o fato.  E que jornalistas nunca deveriam ir adiante com uma história que sabem ser falsa.


"Eu entendo que, no jornalismo de hoje, com um fluxo ininterrupto de fatos e eventos 24 horas por dia, sete dias por semana, não é sempre fácil chegar à verdade, ou até mesmo chegar perto dela", ele disse.  No entanto, "mesmo no jornalismo, é necessário discernir entre as diversas possibilidades."

O
Papa Francisco lembrou ainda que "em toda a história, as ditaduras – de qualquer orientação ou 'cor' – sempre comprometeram não apenas a mídia, mas também impuseram novas regras para a profissão."

O Papa é conhecido por fazer discursos apaixonados que vão além do seu círculo de seguidores e colocam a Igreja Católica sob holofotes, muitas vezes com sua mensagem positiva de inclusão.  Essa sua interlocução com os jornalistas italianos, embora tenha sido dirigida à questão dos imigrantes, com certeza aplica-se também ao Brasil.