30 de jun. de 2012

Democratização da mídia


Será que a regulamentação da mídia brasileira vai um dia acontecer?  Veja o que a grande filósofa brasileira Marilena Chauí tem a dizer sobre o assunto, em uma rara entrevista dada ao Vermelho em janeiro de 2011.  Um ano e meio depois, estamos ainda aguardando que algo se faça nessa esfera...
___

Regulação da mídia deve partir do Executivo, diz Marilena Chauí

Em entrevista à edição de janeiro da revista Caros Amigos, a filósofa Marilena Chauí afirmou que o governo da nova presidente, Dilma Rousseff, tem condições de avançar na democratização midiática.  “Sem comunicação não há democracia.  Por isso, eu só escrevo sobre a mídia, a mídia, a mídia”, declarou Chauí, que é professora titular da Universidade de São Paulo (USP) e há anos não dá entrevistas para a grande imprensa.

Vermelho, 12 janeiro 2011

Segundo ela, para isso acontecer, uma regulamentação do setor é indispensável.  “É um processo longo, mas em cuja discussão a sociedade inteira tem que participar.  Mas a iniciativa de propor tem que vir do Executivo, porque o Legislativo não terá essa iniciativa”, agregou.

Chauí também opinou que o Brasil está na “hora certa” para fazer a reforma política — que, segundo ela, é a melhor maneira para se mudar o sistema de alianças partidárias, sem o qual não se governa hoje.  “Se você não mudar esse sistema de alianças, a atuação é muito limitada em certas coisas fundamentais, como o caso da reforma agrária.  Agora, tem tudo para fazer, porque, agora, tem os Conselhos Nacionais.  Do ponto de vista institucional, está tudo montado”.

A discussão sobre a ocupação das favelas do Rio de Janeiro e o tráfico também foram destaques na entrevista.  “Se você não legalizar as drogas, você não acaba com o crime organizado.  Se você pegar a lei seca, todo crime que se organizou nos Estados Unidos, em particular em Chicago, está ligado à lei seca.  Quando ela acaba, tudo isso desmorona”, disse a filósofa.

Confira abaixo trechos da entrevista:

Caros Amigos: Em 2006, a senhora ficou profundamente descontente com a postura da mídia durante o período eleitoral, e agora a imprensa teve novamente um comportamento bem complicado.  A gente queria que a senhora começasse falando sobre a sua avaliação da cobertura da mídia nas eleições presidenciais.

Marilena Chauí: Eu diria que não houve cobertura.  Houve a produção midiática da campanha eleitoral e das eleições.  Cobertura significaria mostrar o que efetivamente estava se passando no primeiro turno com todos os candidatos e no segundo turno com os dois candidatos que restaram.  E não foi isso que aconteceu. 

A candidata Dilma não teve em instante nenhum a sua campanha coberta pela mídia.  Ela teve a sua campanha ou ignorada, ou deformada ou criminalizada.  E do lado do candidato Serra, também não houve uma cobertura da campanha dele.  Porque, se tivesse havido uma cobertura da campanha dele, o que a mídia deveria ter mostrado? Essa coisa extraordinária que eu nunca vi acontecer em lugar nenhum de um candidato se autodestruir. 

Primeiro, o vice, ele não conseguiu escolher o vice e depois deu uma escolha que não foi feita por ele e insignificante.  Em seguida, ele começa a campanha descendo a lenha no governo Lula, o qual, entretanto, numa pesquisa de opinião, tinha tido quase 90% de ótimo e bom, e, provavelmente, as pessoas que acompanhavam o programa do Serra, aquelas que opinam, devem ter dito que não era uma boa, aí ele passou a dizer que ia fazer o que o Lula estava fazendo, mas melhor.  Aí, quando ele começou a explicar o que era melhor, começou a fazer propostas completamente alucinadas, foi uma alucinação que ele propôs. 

Bom, mas quando nós chegamos nesse ponto, você tem a entrada em cena do segundo turno.  Ora, na hora que entra em cena o segundo turno, o que é que vem como uma avalanche? O famoso dossiê.  O dossiê que foi atribuído ao PT, disseram que a Dilma tinha mandado fazer, que foi o famoso dossiê que o Aécio fez.  Foi o dossiê que invadiu todos os planos da vida do Serra, e mais, atingiu diretamente a filha dele, que eles tinham dito que o PT que tinha violado a menina, a Verônica.  Foi uma completa produção do Aécio, em Minas. 

Ora, isto que destruiria qualquer candidatura em qualquer tempo e lugar, o servilismo da mídia foi tal, que isto, ou não apareceu, ou apareceu em pequenas notícias e de uma maneira tão confusa que ninguém sabia do que se tratava.  E, depois, quando entrou em cena o aborto, em primeiro lugar a mídia nunca disse que quem introduziu o tema do aborto foi a Marina, que fez um discurso conservador dos evangélicos para os evangélicos, introduziu os temas religiosos e o tema do aborto.  Como ela não entra no segundo turno, o Serra se apropria desse tema. 

Ora, uma imprensa que está defendendo a liberdade de expressão, que está defendendo o espaço público, que está defendendo a opinião pública, está defendendo a liberdade de pensamento, como é que ela pode embarcar na entrada em cena como tema eleitoral de uma questão que pertence ao espaço privado, e é uma questão de religião, que é o aborto? A plena cobertura que foi dada a isso, contradizendo o próprio significado daquilo que a imprensa deveria de entender por coisa pública, espaço público, opinião pública e liberdade de pensamento e de expressão!

Bom, então, depois, no caso da Dilma, é mais interessante do que a não cobertura da campanha do Serra, porque no caso da Dilma, tentou-se primeiro a guerrilheira — “É a guerrilheira, a guerrilheira...”.  E eu tinha dito a uns amigos, este é um caminho perigoso.  É um caminho perigoso, porque, em termos de história pessoal, é muito paralela à história do próprio Serra. 

Se você pega o comício dos cem mil, no Rio [de Janeiro], em 1961, o discurso mais radical do comício não foi o do Jango, não foi o do Brizola, não foi o do Julião, foi o do Serra como presidente da UNE.  Ele fez o discurso afirmando...  o núcleo do discurso do Serra em 1961 foi revolução armada.  Então, eu dizia [é] um perigo, porque se eles enveredarem pela figura da Dilma guerrilheira, eles vão ter que dizer que o Serra pregou em 1961 para cem mil brasileiros a revolução armada.

Caros Amigos: A senhora acha que foi diferente essa cobertura da cobertura de 2006 e da cobertura de 1989? O que há de diferente?

Marilena Chauí: Eu acho que a diferença não é de natureza, a diferença é de grau.  Eu diria que, desta vez, tudo aquilo que se realizou num grau um pouco menor, um pouco mais prudente, desta vez, o véu caiu de uma vez só e atingiu o grau máximo de procedimento.  Então, eu diria, não é diferente se eu considerar o modo de proceder, mas é diferente se eu considerar o grau em que isto foi feito.

Caros Amigos: Você levantou alguns elementos que usaram para difamar a campanha dela.  E aí você colocou que um, que durou inclusive até o final, foi que parecia que ela estava à sombra do Lula o tempo inteiro.  Você acha que qualquer candidato teria isso ou você acha que foi por ela ser mulher?

Marilena Chauí: Ah, qualquer candidato teria.  Teria sido isso pelo seguinte: porque a gente não tem analisado muito o que aconteceu com a figura do Lula, já quase no final do segundo turno.  Quando se percebeu que a possibilidade de vitória da Dilma era grande, e havia as pesquisas de opinião sobre o governo e sobre o próprio Lula, a mídia, e quem começou isso foi a própria Globo com uma clareza...  Ela começou a produzir a figura mítica do Lula.  E é através da mitificação da figura do Lula que se vai, agora, falar da Dilma. 

Então, eu diria que é preciso fazer operar juntos o tratamento dado à Dilma com a mudança no tratamento dado ao Lula: “Isso é o Lula, isso é o mito do Lula, ela não vai poder, porque isso é o Lula que é capaz.” Isso é o analfabeto beberrão.  Durante oito anos era o analfabeto beberrão, que agora é o mito político inigualável que ninguém é capaz de alcançar.  Mas, ao lado disso, você tem o quê?

Durante oito anos, nós tivemos que aguentar que era um problema o Lula aparecer nos lugares os mais diferentes e improvisar.  Tinha mania de improvisar os discursos e aí dizia muita bobagem.  Quanta bobagem ele disse por causa de improvisar.  Então, Dilma ganha e vai à televisão, leva um discurso e lê.  O que você vê nos comentadores da televisão, nos comentadores do rádio e no dia seguinte nos jornais? “Ah, não tem a capacidade de improviso do Lula, ela precisa ler, coitada, tudo dela é preparado...  Você vê, ela teve que vir preparada, ela não é capaz de improvisar.”

Eu tinha vontade de atravessar os fios eletrônicos e bater nas pessoas, porque chegou num grau de perversidade, num sentido psicanalítico do termo.  No nível do discurso, não dá mais, porque quando você vira na direção da perversão, a primeira característica da perversão é a de que ela é impermeável ao discurso.  O grande problema da terapia psicanalítica, na hora em que ela é impermeável ao discurso, porque a psicanálise opera no nível da linguagem.  E você tem um evento que está ou aquém ou além do discurso.

Então, a perversidade e a perversão dos comentários sobre o fato de ela ter o discurso escrito foi tal que eu falei: Já temos aqui o que serão os próximos quatro anos.  Os próximos quatro anos vão ser um inferno como foram os oito do Lula, e sobretudo os quatro primeiro anos do Lula.  Vai ser um inferno e não tem jeito.

Caros Amigos: Como é que a senhora explica que o PT tenha ido mais para a direita, ele fez alianças com partidos de direita, com o Sarney, com Maluf, com Renan Calheiros, com Jader Barbalho?

Marilena Chauí: Não, eu acho que é uma coisa interessantíssima que é...  E isso é um elemento curioso da origem sindical do Lula e dos seus próximos.  E que foi muito criticada: “Sindicalista nunca é radical, sindicalista gosta de negociar, é um negociador, faz concessão...” É verdade.  A peculiaridade, entretanto, do sindicalista negociador é que ele negocia com duas características: ele negocia, mas deixa uma ponta sem negociar para a ação seguinte que ele vai realizar.  Ele não negocia por completo — ele deixa outra por negociar para exigir mais. 

O segundo traço: ele não negocia sem o aval da classe.  Bom, então, vamos pegar o governo de um sindicalista.  A primeira coisa é: fez todas essas alianças.  Por quê? Desde 2005, desde a maldição do mensalão (eu não aguento mais bater nessa tecla), já falei muito isto: se você não fizer uma reforma política, se você não mudar o sistema político-partidário do Brasil, essas alianças permanecerão para sempre, porque o sistema partidário está montado de tal maneira que quem tem a maioria no poder executivo nunca terá a maioria no poder legislativo.

Caros Amigos: Por quê?

Marilena Chauí: Por causa do sistema da representação.  Você tem superrepresentação, e você tem a sub-representação.  Você tem a proliferação de siglas de aluguel, você tem a desigualdade regional.  E uma série de outros pequenos mecanismos no interior do sistema partidário.  Eu não me conformo, porque foi um sistema deixado pelo Golbery [do Couto e Silva], quando percebeu que a Arena corria o risco de perder para o PMDB. 

Ele deixou um sistema que, primeiro, fazia algum sentido ao bipartidarismo, mas que não faz nenhum sentido no pluripartidarismo.  E que, além disso, tem uma série de traços deixados pela ditadura que tornam inviável você operar, efetivamente, com a representação que tem um alicerce no seu respectivo partido.  Isso pegou todos os presidentes da República: Tancredo, Sarney, Collor, Fernando Henrique e Lula.  Eu diria que é um elemento de distorção institucional e de freio na democracia, sem falar nas práticas republicanas que são postas em jogo. 

Porque o núcleo da democracia que o Executivo e o Legislativo negociam - eu faço x e você faz y - é constitutivo de uma democracia que haja essa negociação contínua.  Mas, no nosso caso, você vai da negociação para a negociata, porque o sistema é tal que há um hiato entre o Executivo e o Legislativo.  Tem que fazer a reforma política.  Eu estou muito contente, porque eu estou ouvindo a Dilma dizer que vai fazer. 

Vamos examinar as realizações do governo Lula e ver se o sistema político que forçou essas alianças impediu as coisas essenciais do governo Lula.  Não impediu.  Você tem 18 milhões que saíram da linha da miséria, 32 milhões que saíram da linha da pobreza, 40 milhões de empregos novos com elevação salarial.  Você tem 73 Conferências Nacionais com 70 mil pessoas participando para decidir sobre todos...

Caros Amigos: Mas, no caso da Comunicação, as 672 propostas não saíram do papel até agora...

Marilena Chauí: Nós vamos chegar lá, nós vamos chegar lá, espera um pouquinho.  Você pega o modo como a economia foi concebida, de demanda interna, de crescimento interno, de impedir o processo de desindustrialização que tinha sido iniciado, de controlar o poder financeiro e de investir pesadamente no conjunto das políticas sociais que produzem a inclusão econômica...

Da Redação, com informações da Caros Amigos

29 de jun. de 2012

O golpe no Paraguai


Infelizmente, mais um golpe contra a democracia aconteceu na América Latina - desta vez no Paraguai...  Veja abaixo o que o analista politico Nil Nikandrov, escrevendo para a Voltaire Network, tem a dizer sobre isso:


O golpe cuidadosamente planejado no Paraguai

por Nil Nikandrov
Sob a vigia de Obama, Fernando Lugo é o segundo presidente da esquerda latino-americana a ser deposto do cargo em um cenário orquestrado por seus adversários políticos e amigos muito próximos dos EEUU.  Nil Nikandrov prevê que este padrão de golpes de estado constitucionais "suaves" contra líderes desafiantes – testado com sucesso pelos EEUU em Honduras e, agora, no Paraguai – será amplamente replicado em outros países nos próximos anos. A interferência insidiosa nos assuntos internos da região pelo tio Sam não vai ser relegada logo para a pilha de cinzas da história.

Voltaire Network  | 28 junho 2012

O Presidente Fernando Lugo disse, na sexta-feira, 15 de junho, que ele aceita a decisão do Senado paraguaio de derrubá-lo depois de um processo de cassação super-rápido, em que a lei foi "torcida como um frágil galho ao vento." Não é Fernando Lugo, mas "a Democracia paraguaia que foi profundamente ferida".

A operação lançada pelo Departamento de Estado dos EUA e a CIA com o objetivo de deslocar o primeiro Presidente esquerdista do Paraguai, Fernando Lugo, entrou em sua fase final no dia 16 de junho, quando as forças policiais foram enviadas para expulsar os posseiros da fazenda Morumbí, no distrito de Curuguaty, perto da fronteira com o Brasil. Essa propriedade é conhecida por pertencer ao empresário paraguaio e político Blas Riquelme. Ao chegar ao local, a polícia inesperadamente se viu sob um tiroteio profissional com rifles de calibre alto o suficiente para perfurar cinturões à prova de balas. O chefe de uma unidade de polícia de operações especiais (GEO) e seu vice foram mortos a tiros, e a polícia, para a qual instruções haviam sido emitidas para evitar o uso da força, foi deixada sem outra escolha mas retornar o fogo. Como resultado, onze civis foram derrubados e dezenas feridos.
O incidente sangrento em Curuguaty imediatamente obteve resposta do poder legislativo paraguaio, com os deputados e senadores, principalmente os representantes dos partidos da direita-centrista, afirmando que o Presidente Lugo havia perdido seu domínio sobre a situação sendo incapaz de governar o país. Mesmo o Partido Liberal, que confirmou a candidatura de Lugo nas eleições de 2008, distanciou-se do seu antigo protegido. Em geral, Lugo enfrentou um impeachment que ele descreveu como "golpe expresso" do Parlamento.
Os conselheiros legais de Lugo praticamente não tiveram tempo para preparar sua defesa frente ao Parlamento, mas, na verdade, ficou claro que os críticos do Presidente não tinham intenção de mergulhar em detalhes e que o veredito do Senado foi uma conclusão previamente tomada. Toda a operação que levou ao deslocamento de Lugo foi cuidadosamente planejada a fim de descartar um inquérito parlamentar imparcial e foi implementada como uma pressão ofensiva. Sem dúvida, parte da motivação por trás dessa pressa foi depor Lugo antes que os parceiros do Paraguai na UNASUL pudessem se organizar para consultas e decidir sobre um conjunto de medidas em seu apoio.
A vitória deve ter sido fácil para os coordenadores do enredo na Embaixada dos EUA em Assunção. É verdade que a Presidência de Lugo era um tanto quanto nominal desde que o Parlamento, a polícia e o exército no Paraguai estavam do lado da oposição. Tendo prosperado sob financiamento da USAID durante décadas, um grupo de ONGs estava preparado para organizar protestos em massa se o plano anti-Lugo falhasse, mas não foi preciso e – com excessão do número de mortes em Curuguaty – a derrubada do presidente legítimo no Paraguai merece ser enumerada como um caso exemplar no registro da comunidade de inteligência dos EEUU.
Uma equipe de emissários da UNASUL, chefiada pelo Secretário Geral da organização, venezuelano Alí Rodríguez Araque, visitou o Paraguai, reuniu-se com Lugo e com uma delegação parlamentar e testemunhou o procedimento de impeachment, mas foi incapaz de redirecionar os desenvolvimentos. Os senadores paraguaios mostraram pouca consideração para com os visitantes, para não dizer que foram abertamente hostis. Lugo, deve ser observado, mostrou uma total falta de vontade para enfrentar o desafio – ao contrário de sua promessa inicial para se defender nas audições parlamentares, ele simplesmente as assistiu na TV de sua residência. Citando seu compromisso com a lei, o Presidente sendo ejetado irregularmente aceitou a decisão de cassação (à qual apenas quatro senadores disseram Não). A inação de Lugo pode ser atribuída em grande parte ao fato de ele não ter nenhuma influência sob as circunstâncias: ao longo dos três anos da sua Presidência, ele não conseguiu construir uma base de apoio popular e, mesmo quando a pressão aumentou, não teve nenhuma facção própria ou um movimento populista para apoiá-lo. Protestos de rua demonstrando suporte para Lugo irromperam incoerentemente no dia do impeachment mas foram dispersados pela polícia que usou máquinas de água, gás lacrimogêneo e balas de borracha contra a multidão.

Federico Franco imediatamente empossado como Presidente.

Horacio Cortes, favorito dos EEUU nas eleições de 2013.

O vice-Presidente paraguaio Federico Franco, que foi empossado sem demora assim que Lugo foi deposto, ocupará o cargo até que o mandato do presidente deposto se expire em agosto de 2013. As eleições ocorrerão no mesmo mês, e Washington abertamente favorece o líder do Partido Colorado Horacio Cartes, um empresário que, de acordo com a ABC Color, a DEA (Drug Enforcement Administration) dos EEUU por algum tempo suspeitou de lavagem de dinheiro e de cumplicidade com os cartéis de droga. A torção na reputação de Cartes é revelada em alguns dos cabos expostos pelo WikiLeaks, e as chances são de que as agências dos EUA montaram tal arsenal de relatórios implicando Cartes que Washington não teria nenhuma dificuldade em mantê-lo – como a alguns presidentes latino-americanos – sob estreito controle.
Enquanto o mandato inacabado de Lugo foi marcado pela tendência lenta do Paraguai em direção a regimes populistas na América Latina, o golpe da direita-conservadora promete que o país se submitirá totalmente aos ditames dos EEUU. A agenda no horizonte provável inclui esforços para desestabilizar a UNASUL, formando, no seio da Aliança, um bloco de dissidentes para equilibrar as influências do Brasil, da Venezuela e do Equador. Pode-se presumir também que um novo sopro de vida vai ser dado ao outro projeto de Washington – uma aliança de algum tipo novo entre Chile, Peru, Colômbia e México – para enfraquecer o Brasil internacionalmente.
O Secretário Geral da UNASUL, Alí Rodríguez Araque, disse que a demissão de Lugo foi inconstitucional e foi equivalente a um golpe disfarçado, e salientou ainda que muitos dos governos latino-americanos iriam negar reconhecimento a Franco. Presidente Dilma Roussef citou as cartas da UNASUL e MERCOSUL para sugerir a expulsão do Paraguai desses grupos devido à violação das normas democráticas. Cristina Kirchner da Argentina também opinou que sanções contra o Paraguai seriam apropriadas. Ela descreveu a evolução no país como um golpe e mencionou no contexto as tentativas de golpe de estado contra R. Correa e Evo Morales, e o golpe que depôs M. Zelaya em Honduras. A líder argentina declarou firmemente que tais fenômenos não democráticos são inaceitáveis para a região e que medidas seriam tomadas em consonância com as decisões a serem tomadas pelo MERCOSUL. O Presidente equatoriano R. Correa expressou apoio à chamada de D. Roussef para colocar a funcionar as disposições da carta da UNASUL que garantem diversas formas de pressão – não-reconhecimento dos governos correspondentes, exclusão dos países culpados de conduta anti-democrática da Aliança e o fechamento de fronteiras – como punição para os golpistas. Hugo Chávez da Venezuela e Daniel Ortega da Nicarágua contribuiram com declarações semelhantes sobre o assunto.
Perspectivas de uma investigação séria sobre o tiroteio no Paraguai são sombrias. O derramamento de sangue ajudou os adversários de F. Lugo dando credibilidade à sua lista de queixas, enquanto a maioria dos observadores da América Latina reconhece paralelos entre o recente drama paraguaio e o tiroteio na ponte Llaguno em Caracas em abril de 2002. Neste último caso, atiradores dispararam aleatoriamente em manifestantes contra-Chavez, em partidários de Chávez, e em quem quer que estivesse passando. O incidente foi atribuído às forças sob o comando de Chávez, mas circunstâncias curiosas surgiram mais tarde: por exemplo, um correspondente da CNN conseguiu gravar uma entrevista com os oficiais do exército que se opunham a Chavez os quais, como verificou-se, estavam cientes do ataque planejado de atiradores e das mortes iminentes.

Blas Riquelme, proprietário da terra onde confrontos armados provavelmente encenados ocorreram em 15 de junho, envolvendo forças policiais, atiradores de elite e "campesinos" sem-terra, deixando 17 pessoas mortas.

Várias versões do tiroteio de Curuguaty são encontradas na web. Uma possível explicação é a de que a responsabilidade recai sobre Blas Riquelme, que teria contratado os atiradores através de suas conexões com o exército; mas, no entanto, ainda não está claro por que os atiradores dispararam contra a polícia. Uma versão alternativa é que o episódio teria sido uma provocação encenada pelo Exército do Povo Paraguaio, um grupo clandestino supostamente forjado pela polícia para combater extremistas. Esta origem hipotética pode ser a razão por que tal exército sobrevive apesar do intenso trabalho realizado no Paraguai por especialistas em anti-terrorismo convidados dos Estados Unidos e Colômbia.
Alvarado Godoy escreveu no site intitulado Descubriendo Verdades (Descobrindo Verdades) que o episódio inteiro havia sido "montado", essencialmente um show seguindo um determinado modelo. Ele alega ter informações de que a operação envolveu comandos da marinha dos EEUU que estiveram no Paraguai para treinar soldados do país (Fusna). O enredo não soa exótico considerando quão frequentemente cidadãos americanos são apanhados com rifles atiradores por toda a América Latina, como recentemente na Argentina e na Bolívia. A CIA, a DEA e a Agência de Inteligência de Defesa dos EEUU rotineiramente contratam empreiteiros para executar operações secretas com uso de armas de fogo.
A simples previsão é que o padrão testado com sucesso pelos Estados Unidos em Honduras e no Paraguai – o deslocamento pseudo-constitutional de líderes desafiadores – será amplamente replicado na América Latina nos próximos anos. Ainda, Washington seria ingênuo em acreditar que a violência associada a essa estratégia pode ser contida. Em Honduras, o governo fantoche de P. Lobo se agarra ao poder ao custo de uma campanha de terror que já tomou centenas de vidas de políticos progressistas, jornalistas, ativistas sindicalistas, estudantes e líderes indígenas, e isto quase certamente é o que o futuro reserva para o Paraguai.

3 de jan. de 2012

Sobre as Reformas na Legislação da Comunicação no Brasil

Reproduzo abaixo artigo publicado em Carta Maior:

___

“Atiram em Cristina para acertar Dilma”

Em entrevista ao jornal Página/12, o jornalista Paulo Henrique Amorim fala sobre as críticas feitas pela imprensa brasileira contra as reformas na legislação da comunicação impulsionadas pelo governo argentino.  “O PIG se horroriza com o que acontece na Argentina, diz que é o exemplo que não deve ser seguido.  Imagine se Dilma resolvesse fazer o que fez Cristina – a colocariam diante de um pelotão de fuzilamento...  Por isso, aparecem editoriais dizendo que há uma ‘democradura’ na Argentina.  Em matéria de comunicações, o Brasil é uma ditadura perfeita”, diz Amorim  [grifo meu].

Darío Pignotti, Página/12 / Carta Maior, 2 Jan 2012.  Tradução de Katarina Peixoto.

“A imprensa brasileira, com a Globo na liderança, tem por hábito promover chanchadas para demonizar a presidenta Cristina, criticando as reformas na legislação dos meios de comunicação”.  Dizem que Paulo Henrique Amorim, um dos jornalistas mais influentes do Brasil, está entre as pessoas mais detestadas pelos executivos da rede Globo, onde trabalhou por mais de uma década. 

“Conheço a maquinaria da Globo por dentro, vi ela funcionar quando fui editor e depois correspondente em Nova York, entre 1985 e 1996, sei como orquestraram uma campanha para destruir a reputação de Lula nas eleições de 1989.  As campanhas sujas contra governantes que provocam algum incômodo são habituais aqui e, ressalvadas as distâncias, se repetem agora contra Cristina.  Isso que digo sobre a Globo alcança também outros meios de comunicação aos quais passei a chamar Partido da Imprensa Golpista (PIG)”, assinala o jornalista.  “O PIG se horroriza com o que acontece na Argentina, diz que é o exemplo que não deve ser seguido; imagine se Dilma resolvesse fazer o que fez Cristina, a colocariam diante de um pelotão de fuzilamento...Por isso aparecem editoriais dizendo que há uma ‘democradura’ na Argentina.  Um absurdo...em matéria de comunicações, o Brasil é uma ditadura perfeita”.

A entrevista de Amorim ao Página/12 iniciou há dois meses no aeroporto de Porto Alegre, onde um grupo de senhoras o observava insistentemente, até que uma delas se aproximou de mim para perguntar: “É o Amorim, da televisão?” O diálogo foi retomado na semana passada por telefone, desde São Paulo, onde ele trabalha como um dos âncoras da Rede Record, a única que disputa em alguns horários a liderança ainda incontestável da Globo.

Uma espécie de movimento de “indignados” contra o bloco midiático dominante começa a se observar no Brasil, processo vigoroso, mas que ainda permanece nas bordas do sistema, dado que ainda não conseguiu colocar o pé na televisão nem conta com o apoio de um jornal de alcance nacional.  Encabeçando essa guerrilha informativa, há centenas de blogueiros e sites independentes como Carta Maior, Vermelho, Opera Mundi, Brasil Atual, identificados com uma bandeira comum: a aprovação de uma nova legislação para a regulação dos meios de comunicação.

Nas últimas semanas de seu governo, Lula deu a benção ao movimento insurrecional concedendo-lhe uma entrevista no Palácio do Planalto e elaborando um esboço para esse projeto de legislação, herdado por Dilma Rousseff.

Paulo Henrique Amorim está entre os poucos, ou pouquíssimos, âncoras televisivos de grande audiência alinhado com as reivindicações da imprensa genericamente chamada de “alternativa”.  Por isso, suas intervenções sarcásticas acabam sendo particularmente incômodas para os herdeiros de Roberto Marinho, patriarca do grupo Globo, falecido em 2003.

“O Brasil precisa despertar, e creio que está despertando.  A Globo é poderosa, mas já não é mais tanto quanto foi.  A Globo quis, mas não conseguiu impedir que Lula fosse eleito e reeleito, quis e não pode impedir que Dilma fosse eleita.  A família Marinho é uma ameaça à democracia”.

Uma hipotética lei de comunicação deveria acabar com o modelo “monopolista onde a família Marinho abusa da propriedade cruzada de meios de comunicação para asfixiar a competição;  no Rio de Janeiro, são donos de tudo, até do Cristo Redentor:  a fundação Marinho limpou a estátua do Cristo Redentor, e o próximo passo é se adonarem da Copa do Mundo de 2014”.  O método do maior grupo midiático da América Latina, sustenta Amorim, pode ser sintetizada em uma linha:  “Proscrever todo debate com um mínimo interesse na mudança”.

“Se dependesse da família marinho, se interromperiam os movimentos de rotação e translação da Terra, eles não querem mudar nada”, reforça.  Seguindo a lógica de um partido político, a “Globo atuou como oposição golpista contra Lula e atrasa mesmo as transições mais modestas em um país como o nosso, onde nunca caminhamos na direção de mudanças com grande velocidade”.

“O Brasil foi o último país a liberar os escravos (no final do século XIX) e para que ninguém se sentisse ameaçado queimaram os arquivos;  um século depois veio a transição para a democracia, uma transição porca porque, em 1985, assumiu a presidência um colaborador dos militares, José Sarney.  E seguimos esperando a transição completa porque até hoje se obstrui toda investigação sobre a ditadura”.

No dia 18 de novembro, Dilma Rousseff promulgou a Comissão da Verdade, atribuindo a ela poderes para averiguar e examinar os delitos perpetrados durante a ditadura.  O lobby militar e o “boicote” do grupo Globo serão, aponta Amorim, dois fatores de poder que oporão “total resistência” a uma comissão que, segundo a lei, só procurará levantar os responsáveis por assassinatos, desaparecimentos e torturas, mas não encaminhará o julgamento de ninguém.  “Se a Comissão avançar, inevitavelmente virá a público a cumplicidade da Globo com a ditadura, por isso eles vão combatê-la ou ocultá-la.  A Globo foi muito mais do que porta-voz;  foi um dos grupos mais beneficiados pelos militares, que deram a ela uma rede nacional de micro-ondas, tornando possível que se tornasse o gigante que é hoje”.

28 de ago. de 2011

Tragédia na Líbia


Talvez, como opinam alguns analistas, a onda de 'revoluções' no Oriente Médio e norte da África, chamada 'primavera árabe', tenha sido iniciada por forças outras que as dos povos dos países envolvidos, isto é, talvez tenha sido iniciada pelas forças imperialistas da OTAN e seus aliados (fazendo uso de mercenários ignorantes e gananciosos).  Mas, seja lá como for, a reação daqueles povos aos movimentos iniciais está surpreendendo a todos, com certeza!

Os povos da Tunísia, do Egito, de Bharain, do Iêmen, do Líbano e da Síria parecem saber, de alguma forma, que sua soberania é muito importante, apesar da contra-informação/lavagem cerebral perpetradas pela mídia comercial.  Cada um desses países tem sua história.  Mas, os conflitos atuais, principalmente se de fato encetados por aqueles poderosos agentes externos, serão provavelmente 'resolvidos' contra os interesses de seus povos.  Em outras palavras, os imperialistas cuidarão para que nada mude na balança de interesses capitalistas/imperialistas na região, e para que as 'soluções' encontradas sejam duradouras – isto é, para que, a força e a ferro, os interesses dos povos envolvidos sejam mais uma vez desprezados a favor dos interesses da elite capitalista/imperialista local e internacional.

Entretanto, o que se passa na Líbia, situada no norte da África, é diferente. Aqui, a balança de interesses, que pendia para o lado soberano do povo (uma sociedade basicamente tribal) desde que Muammar Gaddafi liberou o país dos vínculos imperialistas, talvez passe novamente para o lado dos assassinos e ladrões se estes conseguirem restaurar seu regime imperialista naquele país.

Mais enojante ainda é a caça hedionda que estão a perpetrar contra Muammar Gaddafi, o líder do povo líbio, por ter-se posicionado contra os interesses imperialistas-zionistas. É possível que os assassinos da OTAN o matem como o fizeram com Sadam Houssain – da mesma forma bruta, grotesca, desafiante, desumana e humilhante tanto à pessoa assassinada como a todos aqueles que compartilham seus valores políticos e morais.

Sem dúvida, vivemos em um momento trágico da história da humanidade: os povos de diversas regiões do mundo estão sendo atacados mais uma vez, como ocorreu na época do colonialismo, por gangsters calculistas e poderosos. Muitos ainda acreditam que podem vencer... Muitos, com certeza, lutarão até a morte por essa vitória, mesmo que demorada e sangrenta...

Os ataques da OTAN e seus aliados contra a Líbia são, assim como os foram os ataques contra o Iraque, crimes hediondos do capitalismo/imperialismo no século XXI, quando se esperava que os seres humanos estariam, finalmente, em condições de cooperar ao invés de competir... E indicam que NENHUM país, além dos pertencentes à 'gang dos aliados', estará a salvo se seu povo optar pela auto-determinação ao invés da submissão ao império e aos seus gangsters no poder...

O texto abaixo reflete o estado de espírito da grande maioria do povo da Líbia, hoje:
___



OTAN envolvendo-se em uma grande derrota e em uma grande queda

Michelle J. Santos, http://mathaba.net/go/?http://thesantosrepublic.com/2011/08/un-security-council-usnato-appointed-lackeys-transitional-council-in-benghazi-is-rejected-by-all-libyan-tribes-by-a-proclamation/,  27 agosto 2011
 OTAN, nós lhe dissemos para deixar a Líbia em paz;  quanto mais arrogante você for, mais dura vai ser sua queda.
"Nos não aceitamos e não aceitaremos qualquer autoridade que não seja a autoridade que escolhemos com nosso livre-arbítrio que são o Congresso do Povo e as Comissões do Povo."

Caros EEUU, França, Reino Unido e OTAN, antes de voces mentirem para o mundo que vocês têm a autoridade e o direito de invadir uma nação soberana, fazendo o mundo acreditar que os líbios querem vocês na Líbia, eu gostaria de reiterar o que 200 tribos na Líbia Oriental, onde se encontra Benghazi, emitiram em sua proclamação em 26 de julho de 2011:

"Por esta carta para a Cúpula Africana extraordinária, organizada em Adis Abeba, os representantes das tribos orientais do Grande Jamahiriya confirmam sua rejeição completa do que é chamado o Conselho Transitório em Benghazi que não foi indicado nem eleito pelos representantes tribais mas imposto pela OTAN."
"O que é chamado de Conselho Transitório em Benghazi nos foi imposto pela OTAN e nós o rejeitamos completamente.  É democracia impor pessoas armadas sobre o povo de Benghazi, quando muitos desses líderes armados não são nem mesmo da Líbia ou de tribos da Líbia, mas vêm da Tunísia e de outros países?"
"O Conselho Tribal garante sua contínua cooperação com a União Africana nas suas sugestões destinadas a ajudar a impedir a agressão contra o povo líbio."
"O Conselho Tribal condena a cruzada agressiva executada pela OTAN e pelas forças árabes regressivas contra o Grande Jamahiriya pois trata-se de uma grave ameaça para os civís da Líbia à medida em que continua a matá-los enquanto alvos civís das bombas da OTAN…"
Nós não aceitamos e não aceitaremos qualquer autoridade que não seja a autoridade que escolhemos com nosso livre-arbítrio, que são o Congresso do Povo e as Comissões do Povo, e a liderança social popular, e nos oporemos com todos os meios aos rebeldes da OTAN e seu massacre, violência e mutilação de cadáveres.  Temos a intenção de opor com todos os meios a nossa disposição os agressores das cruzadas da OTAN e seus lacaios escolhidos.
Vocês entendem isso, membros da OTAN:  Albânia, Bélgica, Bulgária, Canadá, Croácia, República Checa, Dinamarca, Estônia, França, Alemanha, Grécia, Hungria, Islândia, Itália, Letônia, Lituânia, Luxemburgo, Países Baixos, Noruega, Polônia, Portugal, Romênia, Eslováquia, Eslovênia, Espanha, Turquia, Reino Unido e os Estados Unidos?


Acho que é por isso que todos vocês estavam tão desesperados para fazer a transição no último fim de semana.  Em vez de vocês recuarem, agora vocês sabem que, fazendo o que estão a fazer contra Gaddafi e contra a Líbia, vocês desorganizaram todos os negócios do petróleo e causarão ao seu povo em suas nações e ao redor do mundo muito mais graves dificuldades econômicas.


Agora tenho que explicar ao planeta as enormes implicações disso.  Se vocês parassem os jogos que planejaram em 2010 e usassem apenas jogos de assimilação, nós não teríamos ido tão longe, não é?  Agora, todos vocês – 28 – e mais os outros países que apoiam todas as mentiras da mídia e a propaganda pela França, Reino Unido e Estados Unidos destruíram todas as relações diplomáticas conosco, agora e no futuro.

O fato é que vocês, EUA/França/Grã-Bretanha/OTAN, vão perder isto.  Nós lhes dissemos para recuar da Líbia.  Quanto mais arrogantes voces forem, mais dura será sua queda.  A luta ainda não acabou.

22 de abr. de 2011

Uma tragédia diferente no Rio...

Reproduzo abaixo artigo excelente do Frei Betto.

---

Tragédia carioca
Frei Betto, ADITAL, 15 Abril 2011


Doze adolescentes, de 13 a 15 anos, foram cruelmente assassinados, a 7 de abril, nas salas de aula de uma escola de Realengo, Rio. Outras tantas ficaram feridas. O criminoso, de 23 anos, disparou na própria cabeça a 66a bala saída de seus dois revólveres.

Massacre como este nunca havia ocorrido no Brasil. São frequentes nos EUA. E enchem o prato da mídia em busca de audiência. A cada telejornal, reaparecem as fotos das crianças, o depoimento de parentes e amigos, os sonhos que nutriam...

Em Antígona, de Sófocles (496-405 a.C.), a mulher que dá nome à peça rebela-se contra o Estado que a proíbe de sepultar seu irmão. Hoje, a exploração midiática torna os corpos insepultos. As famílias das crianças sacrificadas, ontem no anonimato, agora ocupam manchetes e são alvos de holofotes. É a morte como sucesso de público!

O assassino foi o único culpado? Tudo decorreu de um "monstro” movido por transtornos mentais? A sociedade que engendra esse tipo de pessoa não tem nenhuma responsabilidade?

Um gesto brutal como o do rapaz que matou à queima-roupa 11 meninas e 1 menino não é fruto de geração espontânea. Há um histórico de distúrbios familiares, humilhações escolares (bulliyng) e discriminações sociais, indiferença de adultos frente a uma criança com notórios sinais de desajustes.

Quando pais têm mais tempo para dedicar à internet e aos negócios que aos filhos; adolescentes ingerem bebida alcoólica misturada a energéticos; alunos ameaçam professores; crianças se recusam a dar lugar no ônibus aos mais velhos... o sinal vermelho acende e o alarme deveria soar.

O que esperar de uma sociedade que exalta a criminalidade, os mafiosos, a violência, através de filmes e programas de TV, e quase nunca valoriza quem luta pela paz, é solidário aos pobres, trabalha anonimamente em favelas para, através do teatro e da música, salvar crianças de situações de risco?

Há anos acompanho o trabalho do Grupo Tear de Dança, que congrega jovens de baixa renda da zona Norte do Rio. Embora seus espetáculos sejam de boa qualidade artística, sei bem das imensas dificuldades de patrocínio, de divulgação, de espaço na mídia para noticiar suas apresentações.

É triste e preocupante ver o talento de um jovem bailarino se perder porque, premido pela necessidade, ele deve retornar ao trabalho de ajudante de pedreiro ou, a bailarina, de vendedora ambulante.

Como evitar novos massacres semelhantes ao de Realengo? Quase dois terços dos eleitores brasileiros aprovaram, no plebiscito de 2005, o comércio de armas. As lojas vendem armas de brinquedo presenteadas às crianças. Os videogames ensinam como se tornar assassino virtual.

Há no Brasil 14 milhões de armas em mãos de civis, das quais metade ilegais, como as duas que portava o assassino dos alunos da escola Tasso da Silveira.

Segundo o deputado Marcelo Freixo (PSOL), existem no estado do Rio 805 mil armas em mãos de civis, da quais 581 mil são ilegais, muitas em mãos de bandidos. "O cidadão que compra uma arma para ter em casa, pensando em se proteger, acaba armando os criminosos”, afirmou no Rio o delegado Anderson Bichara, da Delegacia de Repressão ao Tráfico Ilícito de Armas.

Como dar um basta à violência se o Instituto Nobel da Noruega concede o prêmio da Paz a guerreiros como Henry Kissinger, Menachem Begin, Shimon Peres e Barack Obama?

Monstro é tão-somente quem entra armado numa escola, num supermercado, num cinema, e mata a esmo? Como qualificar a decisão do governo dos EUA de, após vencer a guerra contra a Alemanha e o Japão, jogar a bomba atômica sobre a pacífica população de Hiroshima, a 6 de agosto de 1945 (140 mil mortos), e três dias depois outra bomba atômica sobre a população de Nagasaki (80 mil mortos)?

Hitler e Stalin também podem ser qualificados de "monstros” e seus crimes são sobejamente conhecidos. Mas não há uma certa domesticação de nossas consciências e sensibilidades quando somos coniventes, ainda que por inação ou omissão, frente ao massacre dos povos iraquiano, afegão e líbio?

A paz jamais virá como resultado do equilíbrio de forças. Há nove séculos o profeta Isaías alertou-nos: ela só vigorará como fruto de justiça.

Mas quem tem ouvidos para ouvir?

---

O governo Dilma, com razão, não gostou do relatório do Departamento de Estado norte-americano sobre os direitos humanos no Brasil, divulgado semana passada. O Itamaraty fez uma nota de protesto. É pouco. Só há uma resposta à altura: o Brasil emitir um relatório sobre os direitos humanos nos EUA.

* Escritor e assessor de movimentos sociais.